O Gaypardo

Eu sempre achei as tirinhas diárias nos jornais bem bacanas. Os temas, nem sempre, mas convenhamos que é difícil achar assunto todos os dias para fazer uma tira. As temáticas eu achava mais interessantes (ao contrário das charges, que fazem piada de eventos marcantes corriqueiros), mas mesmo as que tinham animais como personagens (Garfield é o exemplo mais notável, seguido por Calvin e Hobbes (não me lembro se é esse o nome mesmo em português)) os assuntos acabavam pendendo pro corriqueiro. Inteligente, engraçado, mas sempre lidando com os aspectos que – considerava eu – eram os mais maçantes e entediantes da existência humana (a angustiante rotina e as, às vezes, regras absurdas do nosso convívio).

E há sempre certas características que se repetem em muitos trabalhos mainstream, como personagens brancos (no caso, a cor da pele, né!) e heterossexuais. Personagens homossexuais geralmente são cômicos ou tão estereotipados que muitas vezes não podem nem ser considerados como reais (há os “purpurinados” por aí, mas isso não significa que todos os homossexuais necessariamente se comportem dessa maneira, assim como heterossexuais se comportam de diversas maneiras distintas igualmente). Algumas novelas vêm tentando mudar isso, mas, via de regra, os purpurinados são os que mais aparecem porque também entretêm a audiência heterossexual que não está nem aí pros dilemas e dificuldades enfrentados pelos gays em geral (por certo, muitas vezes dificultando a vida desses em grande parte).

Eu realmente não entendo por que o padrão. Em se tratando de cor de pele, por exemplo, há muitos negros por aí que dão de dez a zero na cultura de muitos brancos. Claro, comercialmente, pessoas de pele clara querem consumir produtos com os quais consigam ver um reflexo deles mesmos, mas isso é tão chato! Há tantas culturas diferentes mundo afora, tantos comportamentos distintos, e as pessoas só querem saber da mesmice que define os seus mundos pequenos e contidos, muitas vezes sem cor nem ânimo. Há tanta diversidade ao nosso redor, e é justamente isso que faz a vida ser interessante e valer a pena.

Com o livro 4!, criei um personagem negro forte, um protagonista sábio e batalhador, alguém em que outras pessoas (não somente negros) podem se espelhar em busca de um viver mais recompensador e feliz. Com essa tirinha, criei um personagem homossexual central (claro, sempre orbitando ao redor de situações cômicas a fim de tornar a tira interessante e acessível a heterossexuais, mas sem estereotipá-lo) que se vê dividido entre ser o que realmente é ou seguir as normas da sociedade e se enquadrar, por mais que isso não o satisfaça completamente. Claro, essa é apenas a primeira tira, mas já esbocei, no mínimo, umas 20. Com os meus braços machucados, será difícil produzir muitas delas continuamente, mas sempre que sobrar um tempo e eu não estiver cansado, quero continuar finalizando as tiras.

Para aqueles que estavam imaginando como eu consegui finalizar essa tira tão rápido, na verdade eu já vinha trabalhando nela no mínimo há umas três semanas antes de começar o desenho do Abaetê como gaúcho (se lembra, para comemorar o dia do gaúcho?). Eu trabalhava nele nas horas vagas… ou seja, ficava o dia inteiro trabalhando nas ilustrações do livro e, quando sobrava um tempo, desenhava as tiras, não descansando nem um pouco (são muitas idéias, não há tempo para parar!). Agora acho que me sinto forçado a ir devagar. O difícil de ser artista é que idéias boas brotam a todo o momento. É impossível desenvolver todas, e, via de regra, 80% das idéias precisam ser deixadas para trás, por mais incríveis que pareçam, porque, justamente, não há tempo hábil para trabalhar e desenvolver todas. Já descartei inúmeros cadernos cheios de idéias e desenvolvimentos preliminares… ser artista é uma coisa linda, mas frustrante também. ♥

A vontade de fazer essa tirinha veio quando eu vi que o jornal local fornecia um espaço semanal para artistas mandarem as suas próprias tiras. Pensei que seria divertido e ainda me ajudaria a divulgar o meu trabalho, e, no final das contas, serviria como um incentivo para eu executar essa idéia que eu já vinha matutando há tempo. Eu comecei os esboços e então fui buscar a resolução que eles imprimiam as tiras… e aí veio a decepção. Resolução é relação entre uma determinada dimensão (em polegadas, centímetros ou milímetros, usualmente) e a quantidade de pontos que podem ser representados nessa dada dimensão. Imagine que os pontos são os quadrados em um papel quadriculado. Digamos que as dimensões sejam de 30 x 10 centímetros. Consideremos cada um dos centímetros como um quadrado. O comprimento nos daria 30 colunas e a altura nos daria 10 linhas. No total, teríamos 300 quadrados para trabalhar. A razão, nesse caso seria de 1 pixel (ou ponto) por centímetro, e, por conseqüência, essa seria a resolução que trabalharíamos. Isso, no computador, daria uma imagem grotesca, daquelas super quadriculadas digna de um jogo de Atari. Portanto, quanto mais pontos (ou pixels) tivermos em uma dada dimensão, melhor será a resolução e, então, mais detalhada será a imagem. No caso do jornal, a resolução era muito baixa. Baixíssima, pra falar a verdade. Para artistas de tirinhas, resoluções baixas são essenciais porque isso esconde muitos dos “defeitos”, afinal de contas, fazer tiras todos os dias não os permite ter muito tempo para corrigir detalhes. Você não precisa ter um pulso firme e até mesmo erros de perspectiva, simetria e proporção não vão ser muito aparentes. Só que, no caso do jornal, a resolução era tão baixa que a minha tira teria que ter, no máximo, dois quadros, e apenas 1/3 do texto, e olha lá, o que tornou toda a iniciativa inviável. Eu sou detalhista, e gosto de ver os detalhes. Quanto maior e mais clara for uma imagem, melhor. Naquela resolução, mal daria para perceber a diferença entre o (sim O) onça, o lince e o guepardo.

No final, então, decidi continuar com a tira para exibição online e para uso próprio. Nem vou mandar para o jornal porque será ilegível nesse formato em que se encontra agora. Por mais que não tenha dado certo, estou bastante satisfeito com os resultados. A tirinha ficou bem bonita em sua simplicidade elegante. Claro que, dada a complexidade gráfica na qual se encontra agora, caso eu tivesse que produzir outras regularmente, eu só poderia fazer uma dessas por semana, e olha lá, dependendo dos detalhes necessários. Mas como eu não tenho obrigação nenhuma, as tirinhas virão na medida em que eu encontrar um tempinho livre para tralhar nelas. ♥

Enfim. Espero que gostem da tira. Para ver em tamanho maior, acompanhado da versão localizada (alterações na trama/personagens/citações para manter o tom cômico, ao invés de ser uma tradução direta que, às vezes, não faria muito sentido e nem teria muita graça para outros públicos justamente por causa das diferenças entre uma língua e outra) para o público que fala inglês, é só clicar no link abaixo:

CLIQUE AQUI PARA VER EM TAMANHO MAIOR

Não esperem a continuação tão cedo, mas vou fazer o possível para que não demore muito!

Grande abraço e boa semana,
Vagner Albino

Um comentário em “O Gaypardo”


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